Genesis & Konstellationen – Génese & Constelações

Gedichte, zweisprachig: Portugiesisch - Deutsch

ISBN 978-3-927648-19-7

Einband, broschiert
192 Seiten, 1 s/w Autorenfoto
19,2 × 15,6 cm
17,50 Eur[D] / 18,00 Eur[A] / 30,00 sFr

Mit einer Pastellzeichnung von Juana Burghardt. Aus dem Portugiesischen von Juana und Tobias Burghardt. Mit einem Nachwort von Tobias Burghardt

Edition Delta, Stuttgart 2008

Stimmen

A cintilante caligrafia das Constelações e de toda Génese

Uma teologia do silêncio

António Ramos Rosa escolhe o seu título evocador de uma obra que desde logo se afirma como dando-nos as chaves de um “fazendo-se” e também as de uma obra imensa. Ser a testemunha irrefutável das origens, das suas mais profundas experiências e nelas encontrar as palavras justas, descrever os seus encontros eis o desafio!


Este canto das origens, Cântico dos Cânticos para o nosso tempo, trata de temas restritos, visto que convergem sobre algumas imagens. Começa com “a cristalina identidade de um prisma”. De uma luz branca ainda incriada para com as múltiplas cores do mundo. A organização das palavras e das imagens permite esse “operare”, esse milagre. A unidade interior do texto procede de um olhar da alma para com as coisas ausentes, invisíveis mas desejadas para as quais se dirige o poeta. Para uma contemplação e um amor que suscitam a emoção. O caminho percorrido provém da vontade de António Ramos Rosa de viver a sua vulnerabilidade numa confiança fundamental e “à corps perdu”! Para “o espaço puro da extrema delicadeza”. Silenciosa e espera atenta de todos os sinais.

Uma realidade imaginal

António Ramos Rosa coloca o seu léxico em constelação, em arquipélago. O espaço e as suas componentes sensíveis são familiares: da janela aberta para o horizonte, da “ingénua tipografia de um acaso” de “uma gota de chuva uma gota de sangue”, tudo se organiza na “metamorfose” adquirindo sentido neste “acontecimento absoluto sempre no início”. As palavras tornam-se “pólen” para fecundar aquilo que ainda está livre. Esta realidade imaginal desenvolve assim uma teologia do silêncio, da ausência. Criando uma possível alteridade ou encontro ao quebrar o contínuo, o pleno, as relações do mesmo ao mesmo. A distância, a ruptura, o retiro são em Ramos Rosa temas frequentes e essenciais. Uma espécie de apologia da des-continuidade, condição primeira do nascimento do desejo do Outro em si. Da percepção das suas cores, do seu gosto, do seu sabor único. Assim se desenvolve em Génese o feminino ou a Anima que habita o Adão das origens. O texto funciona então em espirais múltiplas entre a contemplação e a voluptuosidade, a ausência do corpo amado até à vivacidade do instante em repouso. Mas ele conserva o mesmo “axis-mundi”, o mesmo paradigma cuja universalidade se torna dependente de uma pobreza do ser, mas rica da vontade de viver a sua vulnerabilidade numa confiança fundamental.

“No meio dia do mar de um verbo absoluto”

Este verso indica um lugar de Génese de “adolescentes sortilégios”. Ele diz de novo a possível inocência na qual o homem não é apanhado num dispositivo mas se torna o centro de uma energia desejante que dá à luz tanto quanto ela deseja. Se tudo fosse dito ou fosse mostrado, visto, não estaríamos nós literalmente possuindo-nos? António Ramos Rosa desenha novamente os contornos da “esfera subtil que é talvez o domínio da divindade liberta”. Génese toma lugar entre os poemas para o nosso tempo. Como um salmo ou um adágio no qual a lentidão é uma condição para o encontro com uma “coisa amada deliciosamente nua”. Oferta do mundo “da beleza do mais perfeito e do mais doce ser”. Constelações oferece uma calma do sétimo dia. Um silêncio como a graça de uma continuidade. Nisso este texto é irmão de Génese. Ele relata não a transcendência mas a imanência do mundo criado a qual é impossível encerrar no real ou com o real. A finitude, as carências são as nossas fontes, uma “incessante germinação... horizonte novo”. Sem emitir uma qualquer mensagem, a obra de António Ramos Rosa cintila no “jogo... universal”.

Poderíamos dizer que ela luta contra tudo o que nos perturba, pacificando o turbilhão expansionista da futilidade qualquer que seja a sua forma. Esta “musical ondulação” lembra-me uma noite na igreja de São Luís dos Franceses, Rua das Portas de Sto. Antão, em que o organista nos ofereceu uma improvisação onde o instrumento traduzia, a partir de um tema de J. S. Bach, o simples mas surpreendente bater do coração. Era também uma caligrafia do Ser “como um trigo do mundo”.

O paradoxo em António Ramos Rosa é que quanto mais ele escreve menos podemos falar sobre a sua obra, por se tratar de uma “frágil geometria.....azul”. Porém, podemos examinar esta geologia do sentido integrando nela uma “constelação...uma delicada dança”. Isto requer uma humildade, um “azul adolescente”. Não se encontrará aqui a metáfora viva deste poeta português que inscreve o mais fugitivo na mais imprescritível das confluências?

Pascal Fleury

(Traduzido do francês por José Luís Monteiro)

 

Originalausgabe: Génese & Constelações, Lisboa: Roma Editora, 2005. Grande Prémio de Poesia APE/CTT, 2005; Prémio P.E.N. Clube Português de Poesia, Lisboa, 2005; Prémio de Poesia Luís Miguel Nava, 2006.

 


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